O Porto da minha juventude
Não é fácil amá-lo. É duro, esquivo, muitas vezes silencioso, parecendo ausente e desprendido de quem o habita. Mas eu palmilhei-o praça a praça, rua a rua, viela a viela, memorizando aromas de pessoas, lojas, plantas silvestres a cobrir muros em decadência, a Adega da Cerca….
Recordo sempre o cheiro peculiar dos carros eléctricos quando travavam na descida dos Clérigos, o cheiro a electricidade como lhe chamava. Mas o mercado do Anjo, ali ao pé da Faculdade de Ciências onde fazia o primeiro ano do Curso de Medicina – o FQN, Física Química e Naturais – e para onde me escapulia, era uma riqueza: sons, aromas, vozes, atitudes, diálogos, tudo sorvia, deleitado, mas num silêncio arisco.
Para um bisonho provinciano, recém-chegado de Aveiro e seus canais malcheirosos, o mercado do Anjo era um deslumbramento de cores e movimento. Vendo a forma como as jovens vendedeiras gritavam o seu discurso persuasivo, para atrair os clientes, nas barracas improvisadas e, logo a seguir, o modo como falavam calmamente para trás, para a mãe que segurava ao colo uma neta rabugenta e chorona, este contraste fez-me descobrir a noção de rôle, do papel que cada um pode representar na vida. A noção de rôle, tão importante no diálogo do médico com a pessoa doente, ficou muita clara na minha mente e ajudou-me muito, ao longo da vida, para conseguir acomodar, com sucesso, as relações pessoais e até a relação amorosa. Mais do que o Ortega, que eu lia por essa época, com o seu “eu sou eu e a minha circunstância”, tocou-me esta ideia de rôle que poderá enunciar-se assim “eu sou eu e o papel social que o meu eu representa para os outros”.
A deambulação pelo Porto sempre me levava ao rio e, principalmente àquele lugar mágico onde o rio força a entrada no mar bravio. Lembro-me de comprar sável na margem do rio, ali no Passeio Alegre, sável acabado de apanhar pelos pescadores que, corajosamente, metiam os seus barcos nas águas revoltas da embocadura do Douro e regressavam, pouco tempo depois, com os pequenos barcos cheios do peixe que vendiam logo ali, sem lota nem balança, a quem, da margem, lhes acenava com o dinheiro. Vendiam e voltavam nos seus barcos, com um pequeno motor à ré, para o turbilhão do encontro das águas do rio com as ondas do mar. Parecia tão fácil a apanha que eu acho que os sáveis que queriam entrar no rio ficavam por ali, algum tempo desorientados, e os pescadores conseguiam recolhê-los nas pequenas redes, fugindo logo, para a margem, com os barcos à frente das ondas do mar.
À beira-mar, quando soprava “o grande vento límpido do mar”, via, às vezes, um franzino vulto feminino que, pessoas mais velhas com as quais privei me disseram ser a Sophia, uma jovem de quem até me deram, depois, a ler, poemas dactilografados para um comentário crítico, do género “acha que isto é publicável?” e que eu escrevi para esses amigos lhe mostrarem. Não tenho o texto mas sei que era favorável embora recomendasse mais cuidado com o ritmo interior das palavras no poema (que atrevimento). Mais tarde encontrei-os no livro que Sophia de Melo Breyner publicou e que tem como título “Dia do Mar”.
O Porto é cidade, é rio e é mar. A relação com o rio é uma relação de afectos ribeirinhos onde não fica bem nem o magnificente, nem o tecnológico. A ponte da Arrábida, uma obra do génio de Edgar Cardoso, respeita a interface terra/rio mas o edifício que foi construído sobre a margem devia ter sido destruído, bem como tudo o que se relacionava com a descarga dos sacos de cimento.
Ficou e incomoda-me quando lá passo; dizem-me que todas as tentativas para lhe dar um destino ou uma utilidade têm falhado. Ainda bem. Pode ser que algum dia o tirem da linha visual de quem ama o rio.
Mas o mais importante na cidade são as pessoas que a habitam e a usam, que nela nascem, vivem e morrem, que nela cumprem miríades de actividades e profissões e que, no seu conjunto, são o corpo e a alma do Porto
Às vezes o corpo parece fraco e a alma parece sofrer de uma “apagada e vil tristeza”.
O corpo fica fraco e a alma triste quando um centralismo excessivo da administração pública lhe retira a capacidade de decidir e de se afirmar. Não há, nesta frase, nenhuma conotação de confronto entre o Porto e Lisboa, que é fútil e estéril. ~
Nenhuma “guerra” faz sentido entre portuenses e lisboetas, membros como somos, ambos, do mesmo Povo, da mesma Pátria, e da mesma Nação que, há mais de oitocentos anos, se chama Portugal. O que está em causa é a “organização política e administrativa da Nação” ou seja o Estado que é uma forma de o poder “burocrático e administrativo” regular a Nação que somos todos nós, como sociedade civil.
Aqui, sim, esta parte da Nação, constituída pelos homens e mulheres do Porto, tem muitas palavras a dizer porque esta parte da Nação tem uma história cultural e política própria e sempre soube gerir as suas actividades e acautelar os seus interesses, sem precisar de tutelas e dando ao todo nacional a sua justa contribuição em pessoas de altíssima competência, em todos os sectores de actividade, e na entrega da tributação legítima dos resultados financeiros do trabalho aqui realizado pelas gentes do Porto.
No tempo do Governo autoritário de Salazar, o único que conheci na minha juventude, eram escolhidos, para serem governo, lentes da Universidade de Coimbra e alguns da Universidade de Lisboa o que, em certa altura, fez deflagrar uma “guerra” entre os Reitores Braga da Cruz e Marcelo Caetano, sobre qual das Universidades era a mais antiga (e, subentendia-se, a mais apta a dar lentes para o Governo).
O Reitor do Porto Amândio, de tradição liberal (à maneira francesa) manteve-se alheio e, no seu íntimo, há-de ter considerado a polémica apenas uma ridícula luta de galos por um lugar no poleiro. O que era um facto é que as grandes figuras do Porto, com imagem pública nacional, ou não eram convidadas para serem governo ou declinavam, polidamente, os convites. Não obstante eram respeitadas e exerciam, de forma discreta, o que mais tarde se haveria de chamar “magistratura de influência”, dando ao Porto e aos seus cidadãos o lugar que lhes competia na “organização política e administrativa da Nação”. Sá Carneiro foi o exemplo mais respeitado e mais invocado, depois da sua morte trágica, porque levou para os órgãos centrais da administração pública a forma portuense de gerir as actividades e acautelar os interesses, com respeito pelo todo nacional. Outro seria hoje o nosso País se a morte (acidental? criminosa?) não tivesse ocorrido tão cedo no seu percurso político.
Porque o que está em causa, seja qual for o regime, primeiro o autoritário depois o democrático, é a competência e a seriedade que não são apanágio em exclusivo de nenhuma região ou cidade de Portugal.
As grandes figuras do Porto quando são de uma indiscutível competência, comprovada no confronto nacional ou internacional, e têm atrás de si uma vida de grande seriedade, a par de outras virtudes, como a coerência e o respeito pela verdade, não são figuras do Porto são referências para o todo nacional, estejam no governo ou fora dele, exerçam ou não funções autárquicas ou regionais.
A imagem que retenho do Porto da minha juventude é de um espaço físico, humano e social onde era (é) possível – e mesmo muito provável –, a emergência de pessoas de grande qualidade, independentemente da actividade que exerçam; porque o Porto é um eco-sistema de liberdade com responsabilidades que faz da honorabilidade pessoal o esteio de todas as outras virtudes.
Janeiro de 2005
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